domingo, 13 de outubro de 2013

9. Um anjo para a Begonha



A senhora Begonha Rodrigues estava a ver televisão. Estava a ver uma telenovela brasileira. Adorava as telenovelas, porque sempre terminavam bem. Pela mesma razão não gostava das notícias, porque quase sempre eram más. O seu marido, porém, odiava as telenovelas e adorava as notícias. E o futebol. Às vezes, não sabia porque tinham casado. Que tinham em comum, se nem sequer um programa da televisão podiam ver juntos?
Mas a verdade é que o Eugênio era um marido quase exemplar. Era honesto, trabalhador, não bebia, não jogava às cartas como o marido da infeliz da sua irmã, não a batia, como faziam outros maridos... Era um marido como poucos e seria um pai muito bom, também, se Deus quisesse dar-lhes um filho. Mas, já eram casados havia quase vinte anos e, infelizmente, não tinham filhos.
Tinham ido a muitos médicos, tinham feito inumeráveis análises, sem conseguirem nada. Depois de muitas decepções, pensaram em adoptar uma criança. Mas, nem isto conseguiram. No orfanato, onde foram para ver se poderiam adoptar um órfão, disseram-lhes que não satisfaziam as condições. Eram maiores de idade e o orfanato preferia dar as crianças a casais mais jovens. E o amor que eles tinham para dar? Conta-se o amor pela idade que se tem? Sentiam-se muito, disseram, mas havia regulamentos. Que se pode dizer? Algumas pessoas não têm nada de sorte.
O telefone soou justamente quando a Marina, a protagonista da telenovela, visitou o dom Rogério para lhe revelar que ela era a sua filha perdida. A Begonha, baixou o som da televisão e pegou a sua orelha no auscultador.
- Estou, disse mas isto não era exactamente a verdade, já que a Begonha estava na televisão. A Marina estava a chorar. O dom Rogério parecia muito surpreendido. Estou, disse outra vez.
Do outro lado da linha ouviu-se uma desconhecida voz masculina.
- Boa noite, disse a voz. Estou a falar com a senhora Begonha Rodrigues?
- Sim, senhor, sou eu. E o senhor, quem é?
- É verdade, continuou a voz, que a senhora, junto ao seu marido, visitou o  orfanato «O bom Jesús» no mês passado?
O coração da Begonha deu um salto. Na televisão, o dom Rogério abraçou a Marina.
- Sim, é verdade, sim senhor. Mas, com quem estou a falar, se faz favor?
- Doutor Alves, seu servidor.
- Doutor Alves? Não conheço nenhuma pessoa deste nome.
- Sim, é verdade. A senhora não me conhece.
- E que é que o senhor quer de mim?
- A senhora não conseguiu adoptar nenhum órfão do orfanato, não é verdade?
- Sim, é, mas o senhor que tem a ver com isto?
- Vou entrar directamente no tema, senhora Rodrigues. Já que a senhora não conseguiu adoptar um menino a causa do regulamento do orfanato, estaria interessada por uma adopção particular?
- Particular, como?
- Eu sou advogado. No outro dia recebi a visita de um senhor, que tem um filho de seis anos. O senhor é viuvo há dois anos e há alguns meses perdeu o seu trabalho também. Não tem meios económicos para poder oferecer ao seu filho o que devia e pensou em dar o seu filho para ser adoptado por uma família boa. Assim, o seu filho vai ter toda a atenção que merece. Então, o senhor pediu-me para eu encontrar um casal que fosse interessado. Dado que tenho um primo no orfanato, pedi-lhe os datos dos casais que passaram por ali sem conseguir adoptar um filho. A senhora e o seu marido parecem o casal ideal para a criança.
- Mas o meu marido e eu, já não somos jovens. Talvez não seja boa ideia...
- Mas que ideia tão absurda! Ao contrário, senhora Rodrigues, quem mais podia amar uma criança tanto como uma mulher que é madura e estável e tem experiência e sabiduria? Eu acho que a senhora é a mãe ideal para aquele menino. E, falando do menino, a senhora deve saber que se trata de um menino muito bom, loirinho como um anjo...
Loirinho, pensou a Begonha, como é o Eugênio! Que sorte! E, sim, era verdade: quem mais podia amar o menino como ela?
- E como podemos adoptá-lo? perguntou.
- Então, a senhora está interessada?
- Estou, sim.
- Neste caso não deve preocupar-se. Eu vou ocupar-me da parte burocrática da adopção. Vou falar com o pai, vou preparar os papeis, os senhores não deverão fazer quase nada. Somente...
- Somente, quê?
- Bom, o pai do menino foi obrigado a pedir dinheiro emprestado quando a sua mulher adoeceu, há quatro anos. Depois, ficou sozinho com o seu filho e precisou de mais dinheiro. Mais tarde, perdeu o trabalho e a sua situação piorou. Agora já deve muito dinheiro e não sabe como o devolver. É provável que vá à cadeia se não pagar o que deve.
- É muito? Quanto é?
Quanto? A Begonha pensou nas suas poupanças que quase não chegavam para pagar a soma.
- É muito, disse.
- Sim, o dinheiro emprestado não foi tanto, mas com os juros...
- Mas nós somos gente pobre. Não temos tanto dinheiro.
A Begonha sentiu que o anjo loiro estava a afastar-se dela.
- Vou ver o que posso fazer, disse o advogado. Entretanto, a senhora converse com o seu marido e pensem no assunto. Amanhã telefono-lhe outra vez. O pai tem pressa e há mais três casais que devo considerar. Boa noite.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

8. Desesperada



Vinte e quatro horas não passam facilmente, especialmente quando uma pessoa conta os minutos, como fez durante toda a noite a pobre Florida. A alba encontrou-a onde a deixámos nós, sentada na cadeira, com a camisa do Joãozinho nas mãos.
Os raios do sol caíram nas suas faces pálidas e obrigaram-na a fechar os seus olhos. Depois, levantou-se e foi ao telefone. Telefonou ao seu trabalho para dizer que não ia e voltou ao seu posto.
Foi ao meio-dia quando o seu rosto pareceu acordar. O sol já estava alto no céu e nas escolas do país as campainhas soavam, assinalando assim o fim das aulas. Miles de crianças de todas as idades saíam das aulas e voltavam para casa. Era hora de ir à Polícia outra vez. Penteou-se, pôs o seu sobretudo e saíu.
E ei-la, agora, que está a andar a grandes passos na rua. Muita gente, que também está na rua, faz o caminho dela mais difícil, porque de instante em instante está obrigada a parar para não embater com alguém. Mas todos os seus movimentos são mecânicos, fazem-se sem ela pensar neles. O olhar dela permanece vazio, ausente, porque o seu pensamento está longe. Cuidado!
Um carro que estava a correr por pouco não a atropela. Felizmente, o condutor pára a tempo. A Florida fica imóvel um bocadinho e depois continua o seu caminho. Uma mulher pergunta-lhe se está bem. Ela nem sequer a ouve. O posto da Polícia já está perto. Faltam só alguns metros. Agora faltam alguns passos. Já não falta nada. Está no escritório do comissário.
Fazer uma declaração de ausência não é uma coisa fácil, especialmente para uma mãe, porque é como se a mãe aceitasse a possibilidade de não voltar a ver o filho, e isto é muito doloroso. Mas é uma coisa que deve ser feito, para a Polícia poder começar as investigaçôes. Então, a Florida responde a todas as perguntas que lhe fazem.
Se o seu filho tem desaparecido outra vez? Não, claro que não. Como é? Loirinho, magrinho, alto até aqui (e a Florida leva a sua mão até à sua barriga) e com olhos azuis. O que levava no dia que desapareceu? Umas calças azuis escuras, uma camisa amarela de lã e um sobretudo castanho claro. E um cachecol às riscas. Onde foi que desapareceu? No centro comercial. Tem alguma fotografia dele? Sim, ei-la.
Um polícia toma nota de tudo o que a Florida diz. Aponta também a ropa que o Joãozinho levava, embora nós saibamos que esta informação não vai servir muito, já que o nosso amigo leva outra ropa agora. O comissário pergunta se a Florida não tem alguma outra fotografia mais recente. Porque nesta fotografia há uma criança pequena, possivelmente de dois anos e o Joãozinho tem seis. Infelizmente, não tem. Mas o seu filho não tem mudado, é igualzinho. Só os dentes de frente mudaram. Do resto é a mesma pessoa.
O comissário toma a fotografia. Não está muito optimista, mas não diz nada à Florida. Ele também tem filhos e não quer nem imaginar como seria perdê-los. Está bem, diz. Vão mantê-la informada, que não se preocupe. Agora já pode ir-se para os deixar trabalhar. Bom dia.

domingo, 6 de outubro de 2013

7. Um acordo criminal



O dia seguinte começou muito bem, com o sol brilhando, como se fosse um dia primaveral. O Joãozinho, infelizmente, não podia vê-lo, porque, como já dissemos, o quarto onde estava não tinha janelas. Mas isto não o impediu de acordar de bom humour. Tinha sonhado com a mãe. Estavam os dois no centro comercial. Ele brincava numa loja de brinquedos e de repente, veio a Florida e regalou-lhe um carro vermelho, todo para ele. Ficou tão feliz!
Quando acordou, claro, o bom humour sumiu. Estava ainda naquele lugar horrível, sozinho na cama, porque o Passarinho já se tinha levantado e tinha saído do quarto.
Deixaram-no dez minutos na casa de banho, que cheirava mal e onde também havia uma barata que se escondia atrás da sanita, e deram-lhe calças de ganga, que lhe ficavam compridos, e uma camisola de lã vermelha. Também lhe  deram um copo de leite – quente, desta vez –, e um pastel de nata. Depois, mandaram-no ao seu «quarto», fecharam à chave, e deixaram-no sozinho em casa, com a advertência de parte do Maestro de portar-se bem durante a sua ausência, ou vê-lo-ia como nunca mais, ninguém o tinha visto. Depois disto, e dado que não sabia como romper a fechadura, o pobre Joãozinho ficou sentado na cama, sem ter nada para fazer além de rezar. E enquanto ele rezava, os dois raptores foram à procura de clientes.
O Maestro conhecia um tipo que trabalhava como porteiro num orfanato. O homem chamava-se Nuno e além de trabalhar pelo orfanato trabalhava por conta própria também. Se, por exemplo, aparecesse um casal que queria adoptar um menino do orfanato, ele, sabendo bem que o processo normalmente levava mais tempo do que o casal estava preparado para aguentar, oferecia-se para ajudar a reduzir este tempo. O tempo que o casal «poupava» assim, dependia do dinheiro que estava disposto a pagar. Até houve alguns casos, onde o processo da adopção durou menos de um mês. Está certo que aqueles casais, além de ter muita sorte, tinham também muito dinheiro.
Mas houve também muitos casos, onde ninguém obteve o que queria: nem o Nuno ganhou dinheiro, nem o casal obteve um filho. E foi nestes casos onde o Maestro punha todas as suas esperanças. Porque, se houvesse um casal completamente decepcionado pelas vias legais de adopção, seria uma vítima ideal e compraria sem mais nem menos aquele menino antipático.
Passou um dia inteiro fora do orfanato, mas sem sorte alguma. Ninguém visitou o lugar naquele dia, e o Maestro ficou preocupado. Como diz o provérbio «tempo é dinheiro». Quanto antes conseguisse vender o menino, tanto melhor seria para ele. Mas o tempo passava sem resultados e isto não era bom sinal. Pensou nos prós e contras de cada opção que tinha enfrente e decidiu pedir a ajuda do Nuno. Claro, a ajuda do Nuno costava, mas ele estava preparado a pagar qualquer preço.
Tocou a campainha. O Nuno apareceu na porta, dizendo que já passava da hora das visitas, mas quando reparou no Maestro parou de falar e fez um gesto que somente eles dois sabiam como decifrar.
Meia hora mais tarde, os dois encontraram-se num parque perto do orfanato. Depois das primeiras palavras típicas de qualquer encontro, chegou a hora de falar de negócios. O Nuno não era tipo de perder tempo e o Maestro tinha pressa. Então, o Maestro pediu a Nuno para lhe dar alguns datos de casais que tinham passado pelo orfanato ultimamente sem conseguirem adoptar nenhum órfão. O Nuno pediu comissão, exactamente como esperava o Maestro.
- É pouco, disse o Nuno quando o Maestro lhe disse o que lhe oferecia.
- Pelo contrário, respondeu ele. É muito mais do que ganhas em seis meses pelo menos, ou me equivoco?
- O custo depende do risco. Sabes muito bem que se me apanharem vou perder o meu trabalho. Tu que vais perder? Absolutamente nada. Ou me equivoco eu?
- E que é o que queres? Diz-me lá.
- Vinte por cento.
- És um ladrão!
- Ladrão, eu? Deus me livre! Eu sou simplesmente um fornecedor de informação. O ladrão és tu, querido Manuel. Ou, preferes o título de raptor?
- Fala mais baixo, idiota! Nem a ti te serve que nos oiçam. E não digas o meu nome verdadeiro outra vez. Chamo-me Maestro, percebeste?
Olhou para um lado. Duas mulheres passavam falando em voz baixa. Os dois homens calaram e quando as duas mulheres se afastaram bastante, recomeçaram a falar.
- O preço não se negocia, disse o Nuno. Vinte por cento é o preço para os amigos. Se não te conhecesse, pedia pelo menos trinta.
- Não posso dar-te tanto, disse o Maestro. Se te dar vinte por cento, não vai ficar quase nada para mim.
- Achas que sou estúpido, ou quê?
- Não, claro que não. O que te digo é a pura verdade.
- Pois eu acho que na vida há muitas verdades. A minha verdade, por exemplo, diz que se estamos aqui a negociar o preço da informação que te posso dar é porque tu não podes estar com um cliente a negociar o preço de um menino. E sabes porque não podes negociar com o cliente? Simplesmente, porque não há cliente. E não há cliente, porque trabalhas sozinho, senão agora os teus sócios teriam encontrado pelo menos um cliente para ti.
Olhou directamente nos olhos do Maestro.
- Ou me equivoco? adicionou.
O Maestro não disse nada. Odiava não poder controlar a situação. Este Nuno era sempre muito difícil. O problema era que precisava dele.
- Bom, disse o Nuno, não acho que tenhamos mais para dizer. Sabes muito bem onde me podes encontrar. Adiós.
- Espera, canalha, está bem. Vinte.
Os dois homens deram as mãos.
- Às seis, disse o um.
- Às seis, repetiu o outro.
Desde o ramo mais alto de um choupo, ouviu-se o canto de um cotovia, selando o acordo.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

6. Assustado



Longe da sua casa, o Joãozinho acordou assustado. Que trovões, meu Deus! Onde estava a sua mãezinha querida? Começou a chamá-la, várias vezes. Então, ouviu-se um trovão e a porta do quarto abriu.
- Não te disse para ficares tranquilo? disse o Maestro. Porque gritas? Não sabes que quando chove há trovões? Pára com os gritos, ou não acabas bem, aseguro-to. Percebes, ou estou a falar para o boneco?
- É apenas uma criança, disse o Passarinho que entrou também no quarto. As crianças têm medo dos trovões. O meu Tomás...
- Pára tu também com o teu Tomás! Preciso de dormir e se este miudo não me deixar dormir, não vou poder trabalhar amanhã! Preciso de ter a cabeça clara, para conseguir encontrar um cliente que valha.
O Passarinho olhou para o Joãozinho. Ele continuava a chorar, mas muito baixo, como se estava a murmurar. O seu Tomás também tinha medo dos trovões. Sentiu compaixão pelo menino.
- Anda tu, disse ao Maestro, e eu fico com o miudo. Não vai gritar mais. Anda!
- Tu não és homem, disse o Maestro enquanto saía do quarto. Vou fechar à chave.
Fechou a porta.
- O que é isto, menino? perguntou o Passarinho. Não sabes que não deves ter medo dos trovões?
O Joãozinho olhou para ele. Sabia a história do tambor do céu?
- A minha mãe diz que os trovões são o tambor do céu, disse a voz baixa.
- É? disse o Passarinho e bocejou levemente. Pois, a minha mãe dizia que quando chove é porque Deus está a chorar pelos nossos pecados.
- Que significa «pecado»? perguntou o menino.
- Más acções, disse o homem e ficou pensativo. Bocejou outra vez. Enfim, não é hora para falar sobre tambores e pecados. Mexe-te, vai mais perto da parede, vamos dormir juntos.
O homem gordo deitou-se na cama e abraçou o menino para os dois caberem melhor.
- Vamos dormir, repetiu.
O Joãozinho fechou os olhos. O corpo do Passarinho era quente e fofo. O Passarinho fechou os olhos também. O corpinho do Joãozinho era muito magro, como uma marioneta de madeira. O seu Tomás era muito magro também.
Na cama, os dois corpos abraçados estão a dormir. Os dois parecem ser muito bem-amados entre si, exactamente como são bem-amados entre si um pai ou uma mãe e o seu filho. Porque, se pudéssemos entrar no coração de cada um, veríamos que o Joãozinho está com a Florida e que o Passarinho está com o seu pequeno Tomás.
Numa casa pequena, não muito longe do lugar onde está o nosso amigo, o senhor Pedro Pinheiro, empregado laborioso de uma empresa têxtil durante vinte e nove anos, volta à sua cama, depois de ter visitado o quarto de banho, por causa do próstata. A Gertrudes, a sua mulher, está acordada também.
- Onde estavas? pergunta.
- Na casa de banho.
- Está a chover ainda?
- Não, ainda não. Foi uma tempestade e já terminou.
- Que horas são?
- As quatro e vinte. Volta a dormir. É cedo ainda.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

5. Num bairro escuro



E agora vamos deixar o nosso amigo – que de qualquer maneira não vai a nenhuma parte – e voamos, com as asas da nossa fantasia, fora daquele local, por cima da cidade que está a dormir, ninada pelo sopro do vento da noite. Voamos por cima dos telhados, por cima das cúpulas das igrejas, passamos por bairros ricos e por bairros pobres, e entramos num bairro tranquilo, escuro, onde não há luzes acesas. Mas, que é isto? Será luz? Vamos mais perto para ver melhor. Sim, é verdade. Numa janela há luz. Alguém estará acordado. Quem será? Entramos?
Dentro de um quarto pequeno, onde há uma cama, um armário, uma mesa pequena com alguns livros encima e duas cadeiras ao lado dela, há uma mulher jovem e bonita que está a chorar. Os seus olhos estão vermelhos por ter chorado muito. Está sentada numa das cadeiras e nas suas mãos tem uma camisa azul com um jota azul escuro bordado num bolso. Olha a camisa e chora. É a mãe do Joãozinho.
A pobrezinha não conseguiu fazer nada para encontrar o seu filho e por isto está tão triste. Quando, no centro comercial, deu conta que tinha perdido o Joãozinho, e depois de o ter procurado por todo o lado, foi directamente à Polícia. Pediu ajuda para encontrar o seu filho, mas o comissário disse-lhe que não podiam fazer nada, sem primeiro não passarem vinte e quatro horas. Muitas vezes, adicionou, as crianças fogem mas, normalmente voltam para casa dentro de vinte e quatro horas. Provavelmente o mesmo tivesse acontecido com o João.
Mas como isto era possível? Eles não sabiam quanto bom era o seu Joãozinho. Ele não fugiria nunca porque a queria muito. Aliás, era uma criança pequena e não conhecia como voltar a casa. Como podiam ser tão indiferentes? Ela chorou, suplicou, ameaçou, mas não conseguiu nada. O comissário mandou-a para casa, porque se o Joãozinho voltasse e não a encontrasse, provavelmente ia-se embora outra vez.
Com o coração muito magoado, a Florida voltou para casa e sentou-se numa cadeira, com a sua atenção virada para fora, procurando ouvir os passos do seu filho a chegar a casa, dando um salto cada vez que ouvia algum som fora da porta e depois desiludindo-se quando dava conta que não havia ninguém. Não comeu nada, nem mudou de postura. Somente quanto caíu a noite, levantou-se, acendeu a luz, tomou uma camisa do Joãozinho nas mãos como se fosse ele mesmo e sentou-se outra vez. Nesta postura é que a vemos agora. É uma pena que não possamos confortá-la.
Fora da janela da Florida, as nuvens reúnem-se como se tivessem segredos para contar. Talvez estão a falar do Joãozinho, talvez de algum outro. Mas não parecem ser muito educados, falam todos juntos, interrompem o um ao outro, alguns falam mais alto, outros começam a falar mais alto ainda para ser ouvidos, pouco a pouco a situação passa os limites e começa uma rixa forte. Ouve-se muito barulho, há bofetadas, palavrões, mas no fim, todo se resolve com um choro enorme.
A Florida ouve os trovões e vê a chuva forte que cai fora da janela. Pensa no seu filho. Onde estará? Quem estará com ele para o acalmar, já que tem medo dos trovões? A pobre mulher não pode parar de chorar e as suas lágrimas são maiores do que as maiores gotas da chuva.