domingo, 10 de novembro de 2013

21. Telefonema de Natal



Amanhã é dia do Natal. Dia festivo para todos, que o festejam com a família. Isto é o que pensa a Florida, e está completamente desesperada.
Tantos dias passaram e ainda não soube nada do seu filho. A única coisa que o comissário Santos lhe disse foi que, como parece, o Joãozinho não foi raptado pelo bando brasileiro. Menos mal, mas mesmo assim, a verdade é que ninguém sabe em que tipo de perigo está exactamente o seu filhinho.
Na cama do Joãozinho está um pacote. É o presente que ela comprou para ele. É um carro pequeno vermelho. Custou-lhe um bocadinho caro, mas nada pode ser mais caro de um filho, não é?
A Florida pensa que seria boa ideia ir à igreja e rezar ao menino Jesús para proteger o seu menino e para o devolver nos seus braços muito pronto. Pensa também que seria boa ideia fazer um voto. Pode prometer que não vai cortar o seu cabelo até o Joãozinho voltar. Dantes, as mulheres faziam votos deste tipo, quando os seus maridos partiam longe, ou quando iam à guerra, ou quando estavam muito doentes.
Abre o roupeiro, onde está o seu único vestido. Soa o telefone. O coração da Florida dá um salto. Quem será?
Anda correndo ao telefone e com mão tremente levanta o auscultador.
- Estou, diz com uma voz que apenas se ouve.
- A senhora Pestana? pergunta uma desconhecida voz masculina.
A Florida senta-se na cadeira que está ao lado do telefone.
- Sim, sou eu, diz e sente o seu coração galopando dentro do seu peito.
- Temos o seu filho, senhora Pestana, e se a senhora quizer vê-lo outra vez, tem de pagar...
- Não percebo, balbucia. Quem é?
- Oiça, continua a voz, porque não vou repetir. Se a senhora quer ver o seu filho outra vez, tem de pagar dinheiro.
De repente, a Florida dá conta do que se trata.
- O meu filho, diz, como está? Onde está?
Grandes lágrimas começam a correr nas suas faces.
- Pelo momento, o seu filho está bem, não se preocupe.
- Quero falar com ele. Quero falar com o meu filho!
- Mãe, ouve-se a voz do Joãozinho.
- Meu amor! Como estás? Onde estás? Fizeram-te algo mau?
- Como a senhora vê, não estou a mentir, ouve-se outra vez a voz do homem desconhecido.
- Quero falar com o meu filho, diz outra vez a Florida. Quero ouvir ele mesmo dizer que está bem.
- Mãe, ouve-se o Joãozinho outra vez.
- Filhinho, como estás, meu amor? Estás bem?
- Leva-me de aqui, mãezinha, leva-me de aqui!
- Sim, filhinho, sim, tem um pouco de paciência. Pronto estaremos juntos, não fiques triste...
- Mãezinha, procurei escapar, mas não sabia...
- Então, ouve-se a voz do homem, a senhora viu que o seu filho está vivo. Agora, se quizer ver o seu filho, tem de seguir as nossas instruções.
- Sim, vou fazer tudo o que me disserem, por favor não lhe façam mal!
- Tudo dependerá de si.
- O que devo fazer?
- Primeiro, não pode avisar a Polícia. Se avisar a Polícia, sinto muito mas teremos de matar o menino.
- Matar? Não, não, por favor, não lhe façam mal! É apenas um menino. Não vou chamar a Polícia, prometo-o, não se preocupe.
- Segundo, a senhora deve deixar o dinheiro num lugar que nós vamos decidir e deve andar ao lugar sozinha, sem companhia de ninguém.
- Sim, claro, vou fazer como me diz. E onde tenho de ir?
- Já é cedo para a senhora saber. Vamos avisá-la um pouco antes do nosso encontro. Depois, quando tivermos o dinheiro, a senhora vai ter o seu filho.
- E como posso saber eu que vão fazer o que me diz?
- Não pode saber, diz a voz. Mas se a senhora não fizer o que dizemos, pode ter certeza que não vai voltar a ver o seu filho...
A Florida sente tanto medo que, até agora, nunca sentiu na sua vida.
- Está bem, diz. E quanto é que os senhores querem para deixar o meu filho?
Ouviu bem?
- Mas é muito, diz e pensa que muito pronto vai desmaiar. Eu não tenho tanto dinheiro.
- Sim, todos dizem que não têm, mas um pouco depois todos encontram. A senhora tem certeza que quer ver o seu filho? Porque podemos deixar a situação como está: nós sem dinheiro e a senhora sem filho...
- Por favor...
- Não somos más pessoas, senhora. Digamos que esta não é a sua resposta final. Vou telefonar outra vez esta noite para saber qual é a sua decisão. E, lembre-se: nada de Polícia. Com licença.
A Florida fica com o auscultador na mão. O que tem de fazer agora?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

20. Um testemunha fundamental

O pequeno Carlos acabou a sua comida e agora está no salão, a brincar com o seu boneco favorito, um ursinho fofo, de peliça branca, que se chama Nevinho. O ursinho é o seu melhor amigo. A ele confia tudo. É uma pena que o ursinho não possa falar, mas mesmo assim, o Carlos percebe muito bem o que o ursinho diria se pudesse falar.
Hoje o dia parece muito bonito. Que te parece um posto ao lado da janela, Nevinho? Claro que gostas da ideia. Vamos, então.
Com alguma dificuldade, já que há somente três dias que conseguiu andar, o pequeno Carlos levanta-se e vai para a janela, arrastando o Nevinho com ele. Aqui fica-se bom, não é? Que dia tão bonito!
Ouve-se a campainha. Alguém está na porta. Quem será?
- Bom dia, senhora, diz uma voz masculina. Eu sou comissário Santos.
- Bom dia, comissário. Aconteceu alguma coisa? pergunta a mãe do Carlos.
- Não, não se preocupe, só queria fazer-lhe algumas perguntas.
O pequeno Carlos vai gatinhando para a sua mãe.
- Passe, diz a mãe ao comissário.
Sentam-se no salão. O comissário parece enorme. Que barrigão! Parece um balão, não é assim, Nevinho?
- A senhora viu por acaso esta criança? É maior do que nesta fotografia e tem mudado os dentes da frente.
- É-dé-dé, diz o Carlos. Deixem-me ver.
- Não, não o tenho visto, diz a mãe.
- A senhora tem certeza? Deve estar aqui perto. O menino foi raptado há alguns dias e ontem foi visto neste bairro.
- Eu-eu. Da-da-da. Eu sei, diz o Carlos. Vi-o. Po.
- O que há, tesouro? pergunta a mãe. Fica tranquilo um bocadinho e a mãezinha vai levar-te ao parque, está bem?
- Ó-ó-ó.
- Pelo menos notou algum homem desconhecido neste bairro?
- Á-á-ó. Do-do. Be-be-be. O homem era alto, moreno e muito magro e tinha um rabo de cavalo, porque tinha o cabelo cumprido. Usava óculos redondos e tinha um anel no dedo pequeno. Eu vi. I-i-i. Da-da-da. Bo.
- Sim, querido, diz a mãe, vamos ao parque. Sim, mas agora deixa a mãezinha falar com o senhor comissário, está bem?
- Ba-ba-ba. Foi lá fora onde o vi. Na rua. Ua.
O Carlos levanta a mãozinha para mostrar onde estava o homem.
- Sim, querido, vamos lá fora, diz a mãe. Mas espera um bocadinho.
- I-i. Du-du-du. Depois veio um outro homem num velho carro azul escuro, e levou o homem do rabo de cavalo e o menino. Justamente cá fora. Cá-cá.
- Emergência, querido? Queres ir à casa de banho, meu amor? pergunta a mãe. Não te preocupes, vamos agora mesmo.
- Se a senhora ver o menino, por favor avise a Polícia, diz o comissário e levanta-se do sofá. Eis o meu cartão de visita. Pode telefonar directamente a mim.
- Desapareceram de seguida. Ba-ba-bu.
- Pois claro.
- Bom dia, senhora.
- Ó-ó. Da-da-da.
- Bom dia a ti também, diz o comissário ao pequeno Carlos.
A porta fecha. O comissário vai-se embora e a mãe vai para a casa de banho, levando o Carlos pela mãozinha.
- Vamos à casa de banho, então, diz, e depois vamos vestir-nos para ir ao parque. O meu Carlinho está muito falador hoje, não é? O que aconteceu? Gostaste do senhor comissário?
- Ba, diz o Carlos. Deixa-estar.
O menino não está nada satisfeito. Hoje falou tanto como não tinha falado em toda a sua vida, mas ninguém reparou. Quando for grande, pensa, tudo será diferente. Porque, obviamente, ninguém repara em nós, os pequenos, não é assim, Nevinho? Mas quando for grande, todos vão ver. Da-da-du.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

19. À procura de testemunhas



O comissário Santos está numa rua central. Desde a manhã percorreu-a toda, sem encontrar nenhum sinal do Joãozinho. Está cansado mas não desiste. Uma voz dentro dele diz-lhe que as respostas que procura estão lá perto.
Anda na rua com grandes passos e o seu olhar vai da uma parte da rua à outra, procurando imaginar onde podia ter ido o menino, quando escapou dos seus raptores. No parque não o viu ninguém. Na rua, também. Mas, o que aconteceu, sumiu?
O casal que foi interrogado ontem não deu muitas pistas. Só pôde dizer onde estava o escritório do advogado-embusteiro. Os policias encontraram bastantes impressões digitais para procurarem os raptores, mas, até isso acontecer ele não pode perder tempo. Deve agir agora já.
Se não foi ao parque, onde podia ter ido? pergunta-se. Provavelmente não ficou na rua central. Provavelmente tratou de escapar através de uma rua lateral. Um menino muito esperto. Oxalá tenha conseguido escapar.
Vira à direita. Uma rua tranquila. Há menos tráfico e menos gente nesta rua, mas mesmo por isto parece mais tranquilizadora, especialmente a um menino de seis anos. Podia ter solicitado refúgio numa destas casas pobres?
Uma depois da outra, as casas gradualmente o decepcionam. Também nesta rua, ninguém o viu. Podia ter ido a uma outra rua lateral, obviamente. Está bem, pensa. Uma ou duas casas mais, e depois vou para uma outra rua.
Entra num jardim bonito. Uma senhora está a falar com uma planta. Que tipo de testemunha seria uma mulher que fala com as plantas? Mesmo assim, tem de provar.
- Bom dia, senhora.
- Ó meu Deus, que susto! diz ela. Estava distraída. O que é que o senhor quer?
- Desculpe, senhora, não queria assustá-la. Sou comissário Santos, e queria fazer-lhe algumas perguntas sobre um menino.
- Estou à sua disposição, comissário.
- A senhora viu este menino? Temos informação que ontem, ao meio-dia, estava no seu bairro.
- Que coincidência, senhor comissário! Ontem, ao meio-dia, adormeci um bocadinho e sonhei com este menino.
- Sonhou com o menino? Como?
- Deve ter acontecido quando estava a falar com a camélia...
O comissário pensa que a senhora não anda bem na cabeça, mas mexe a sua cabeça em sinal de aprovação.
- Continue, diz.
- Estava a falar com a camélia, quando ela me respondeu...
- Respondeu-lhe a camélia?
- Sim, senhor, mas, como já lhe disse, estava a sonhar. A camélia respondeu-me, mas resultou que não era a camélia que me respondeu, era este menino da fotografia.
Podia não ter sonhado com o menino? pensa o comissário. Podia tê-lo visto de verdade?
- Disse-lhe alguma coisa?
- Quem?
- Pois, o menino, claro.
- Não me lembro claramente, mas acho que me disse um conto.
- Um conto?
- Sim. Era sobre um maestro e um passarinho que conduzia um carro, acho. Não me lembro de nada mais.
O comissário pensa que a senhora está louca. Tanto tempo perdido. Tem de ir-se embora.
- Bom, senhora, muito obrigado pela sua ajuda.
- Ah, sim, e depois apareceu um homem de rabo de cavalo...
- Está bem, senhora, obrigado. Bom dia.

domingo, 3 de novembro de 2013

18. Prisioneiro outra vez



O Maestro estava muito zangado. Dava voltas e mexia as suas mãos continuamente. Desde o quarto contíguo, o Joãozinho não podia vê-lo mas, com a orelha pegada na porta, procurava ouvir.
- Menos mal que o apanhei, dizia o Maestro. Podes imaginar o que aconteceria se o menino conseguisse escapar?
- Mas nós conseguimos levar o dinheiro do casal, não é?
- Sim, mas imagina se o menino tivesse ido à Polícia, estúpido! Podiam ter-nos encontrado antes de escapar com o dinheiro, percebeste?
- Porque te zangas, homem? Encontraste o menino, não o encontraste?
- Sim, está bem, tens razão, disse o Maestro, como se tivesse acordado de repente. Agora temos de ver o que vamos fazer com o rapaz.
- Sobre isto não é difícil pensar, disse o Passarinho. Vamos deixá-lo num lugar apartado e vamos desaparecer.
O Joãozinho sentiu-se aliviado. Iam deixá-lo livre. Era questão de tempo. Tinha simplesmente de ter paciência.
- És mesmo estúpido, disse o Maestro. Porque não pensas como podíamos ganhar mais dinheiro?
- Quem quer muito, perde tudo, dizia a minha mãe.
- Pois a minha mãe não dizia coisas estúpidas.
- Muito bem, então. Se tu és tão esperto, diz-me como podemos ganhar mais dinheiro. Vais vendê-lo outra vez?
O sangue do Joãozinho gelou.
- Isto não é sábio, disse o Maestro. Temos de fazer algo um bocadinho diferente. Vamos vendê-lo à sua própria mãe.
- Vendê-lo à própria mãe? Que queres dizer com isto?
- Vamos telefonar-lhe e pedir-lhe resgate.
- Achas que tem dinheiro para dar?
- Não custa nada perguntar.
- Sim, mas não pensas que assim vamos arriscar ser localizados pela Polícia?
- Vamos pedir-lhe para não implicar a Polícia. Ela não vai arriscar a vida do seu filho, não é?
- Espero que tenhas razão.
- Claro que tenho. Ó tu, ranhoso, qual é o número do telefone da tua mãe? E qual é o seu nome?