domingo, 17 de novembro de 2013

24. O senhor desconhecido



O Cristovão Colombo, desculpem, o Cristovão Calumba queria dizer, estava a discutir com os seus amigos. Pouco antes, estavam todos a jogar a futebol, aproveitando do dia soalheiro. E, de repente, o guarda-redes da sua equipa decidiu ir-se embora. Naquela altura, a equipa do Cristovão estava a vencer com dois golos que ele próprio tinha feito.
O Cristovão zangou-se, porque ele era o chefe e, portanto, ele devia decidir.
- Na próxima vez, disse ao Zé, o guarda-redes, procura outra equipa. Na minha equipa não cabes.
- Não digas isto, disse o Zé, que sentiu vontade de chorar, mas procurou parecer forte. Eu sempre jogo na tua equipa...
- Já falei, disse o Cristovão levantando a mão, para os outros perceberem que ele era o chefe, meu Deus, que falta de respeito!
A discussão continuou e, finalmente decidiram que a partida tinha terminado e que todos voltavam para casa. A fim de contas, era Natal e as suas mães espera-los-iam para comerem com a família. O Cristovão ficou de mal humor. Era chefe, ou não era? Não contava a sua opinião? «Vou despedi-los todos da minha equipa», pensou. Mas antes disso, tinha de procurar novos jogadores. Que vida tão difícil, a vida de um chefe!
 O que o Cristovão nem imaginava era que havia coisas mais difíceis na vida. E uma coisa muito difícil mesmo era a coisa que tinha acontecido ao Joãozinho, que estava ainda encerrado no quarto sem janelas, sem saber o que ia acontecer-lhe.
Desde o dia anterior estava muito preocupado com a sua mãe. Como tinha ouvido através da porta, a Florida tinha comunicado com o Maestro e tinha-lhe pedido para lhe dar um prazo de dois dias, para ela conseguir encontrar o dinheiro. O que teria na sua mente? Ia mesmo encontrar o dinheiro? Onde?
Acontecesse o que acontecesse, porém, ele não estava muito optimista. A discussão do dia anterior entre os dois homens, embora ele não tivesse conseguido perceber (era algo sobre órgãos, mas não sabia o que), não o deixava relaxar. Algo mau estava à sua espera. Se não, porque naquela mesma manhã os dois homens não tinham trocado nem uma palavra entre eles? 
 O Joãozinho tinha razão. Desde o dia anterior, o Passarinho não falava ao Maestro, e procurava ficar sozinho. O Maestro, por outra parte, não se preocupava com isto, porque estava preocupado com o seu plano alternativo. Desde a manhã, estava no telefone, a falar em voz baixa e a fumar um cigarro depois do outro. O Joãozinho não podia vê-lo, mas podia cheirar o fumo que entrava por baixo da porta.
Era quase a hora da comida, quando a porta do quarto abriu e o Passarinho entrou.
- Fica tranquilo, disse ao Joãozinho. Vou atar-te e vou fechar-te a boca também. O Maestro não quer que fales com o senhor X.
- Quem é o senhor X?
- Não sei, este é o seu nome, disse o Passarinho e atou as mãos do Joãozinho com um fio forte.
- Este é...
Mais não pôde dizer mais, porque o Passarinho já lhe tinha tapado a boca com um trapo.
- Agora vem, disse o Passarinho e conduziu-o no quarto contíguo, onde, além do Maestro, havia também um homem desconhecido.
O Passarinho saíu do quarto e o Joãozinho ficou a observar o senhor X. Era alto, magro, e loiro. Os seus olhos não se viam, porque usava óculos de sol. Usava também um fato escuro, que parecia de boa qualidade e um cachecol branco. Os seus sapatos brilhavam.
O Joãozinho não se impressionou nada, claro, porque já tinha aprendido que a boa roupa não é sinal de uma pessoa boa, e que, muitas vezes, aquilo que parece muito bom é na realidade a pior coisa possível.
O Maestro, por outra parte, ficou impressionado pelo como se pareciam os dois: aquele homem certamente podia passar pelo pai do miudo. O Passarinho era uma escolha obrigatória. Mas, com o senhor X podia vender o miudo mil vezes e ninguém poderia imaginar que não se tratava de pai e filho.
- Porque é que está amordaçado? perguntou o senhor X.
- É uma estranha história, disse o Maestro. Este miudo quando fala, faz as pessoas adormecerem. Já me escapou uma vez assim.
- É verdade? disse o senhor X. Então se trata de um menino esperto e forte.
- Quanto a isto...
- Acho que o menino dá para o meu cliente.
- Claro que vai dar, disse o Maestro. É um menino saudável. E quando vamos ter o dinheiro?
- Hoje mesmo eu falo com o cliente e depois arranjamos tudo. Acho que amanhã estaremos prontos. Tenho também de falar com o Talho. Ele vai fazer a operação. Em todo caso, vou telefonar.
- Como o senhor quizer...
- Até amanhã, então.
- Até amanhã. Obrigado.
O senhor X saíu da casa e foi para o seu carro. Mais uma missão com sucesso. O menino era ideal. Parecia saudável. Todos os seus órgãos estariam em óptima condição. Oxalá, porém, não tivesse aqueles olhos tão grandes. O senhor X ficou pensativo. Era como se o olhar do menino fosse cravado na sua mente.
Abriu a porta do carro e sentou-se dentro. Se não fosse aquele menino, seria um outro, pensou. Isto era a pura verdade. Era também verdade que com a comissão que ia cobrar, conseguiria comprar uma casa de campo.
No assento do lado havia a fotografia da casa que ia comprar. «Que bonita!» pensou. «E dentro de pouco, será mia.» Era verdade que o negócio dos meninos raptados não era agradável. A fim de contas, eram crianças inocentes. Mas, era verdade também que aquele negócio pagava muito bem mesmo.
O senhor X pôs o carro em movimento e desapareceu a grande velocidade.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

23. O dilema de uma mãe



A Florida sente-se mais sozinha do que jamais se sentiu. Agora seria óptima ideia se ela também tivesse uma mãe para perguntar: ó, mãe, o que é que devo fazer para salvar o meu filho? Mas, como já dissemos no início da nossa história, a Florida pertence àquelas pessoas pouco sortudas, que desde muito cedo têm de caminhar na vida com os seus próprios pés, sem apoio de ninguém.
As paredes calam-se. A janela não sente a sua dor. Os livros que estão na mesa não sabem dizer-lhe nada.
Quanto difícil é decidir! A coisa correcta seria sem dúvida chamar a Polícia. Mas, por outro lado, aquele homem disse que se ela chamasse a Polícia, iam matar o seu filho! Meu Deus, não deixes que me matem o meu Joãozinho, pensa.
De repente se lembra das exigências dos raptores. Onde vai encontrar o dinheiro que lhe pediram? Nem sequer ter poupanças. Tudo o que ganha do seu trabalho no café não basta para ter uma vida decente, muito menos para poupar. Aliás, as pessoas que conhece são também gente pobre. Mas, mesmo se não fossem pobres, quem lhe emprestaria dinheiro?
Ninguém, esta é a resposta certa. Ninguém lhe prestaria dinheiro. A Florida inocente já cresceu, não acredita nas fábulas e sabe perfeitamente de onde vêm os bebés. Sabe também que a sociedade é muito cruel, especialmente para com os pobres. Não há bondade no mundo, não senhor, e também não há justiça, porque se houvesse justiça, ela, que não tem nada mais do que o seu filho, não estaria nesta situação tão difícil e tão triste.
O que vai acontecer, então? Porque, se não encontrar o dinheiro que os raptores querem... é muito provável... é muito provável que... (não quer nem sequer pensar nisto) ... que ... (que o matem, porquê não o diz?)....
Não tem tempo. Os segundos voam, os minutos correm, as horas passam rapidamente. Muito pronto serão as seis... e depois as sete... e depois...
Soa o telefone. Mecanicamente, a Florida levanta o auscultador.
- Boa tarde, senhora Pestana, ouve-se uma voz que lhe parece conhecida. Como está?
- Bem, responde ela, simplesmente por costume. Quem é?
- Desculpe, claro, não me presentei. Sou o comissário Santos.
- Alguma novedade, comissário? pergunta a Florida, pensando que pudesse ter acontecido algum milagre.
- Não, sinto muito, não tenho nenhuma novedade. Sabemos, claro, os nomes das pessoas que raptaram o seu filho...
- Sabem? Quem são?
- Sinto muito, mas são pessoas com um passado criminal. Um deles chama-se Manuel Matias e no passado foi condenado por contrabando, e o outro chama-se Elias Carvalho e é um ladrão de carros, que foi preso pelo menos duas vezes.
- Isto é boa notícia, não é? pergunta a Florida. Porque, se os senhores conhecem quem são, é mais fácil encontrá-los.
- Pois, o problema é que não podemos encontrá-los, pelo menos ainda. Não sabemos onde estão. Mas não se preocupe, espero muito pronto estar na posição agradável de poder devolver o seu filho à si.
A Florida está indecisa. Se avisar a Polícia, matam o Joãozinho, pensa. Se não encontrar o dinheiro pedido, também o matam. Falo ou não falo?
- Senhora, está bem? ouve-se a voz do comissário Santos. Aconteceu-lhe alguma coisa?
- Não, não aconteceu nada, estou bem, obrigada.
- Não queria incomodar a senhora, mas telefonei para lhe dar os meus desejos para o Natal. Oxalá o ano novo, que está a aproximar, a encontre com o seu filho nos braços. Eu, por minha parte, vou fazer tudo o que puder.
- Muito obrigada. Que Deus oiça.
- A minha esposa também lhe manda os seus melhores desejos. Reza por si e pelo seu filho todos os dias.
- Diga-lhe que lhe agradeço a bondade.
- Estive a pensar, diz o comissário, que é muito provável, já que o seu filho não foi raptado pelo bando brasileiro, que a senhora receba algum telefonema dos raptores.
Os cabelos da Florida movem-se no seu crânio.
- Se, continua o comissário, se os raptores vierem em contacto consigo, por favor avise-me.
Se avisar a Polícia, pensa a Florida, matam-no.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

22. Clientes novos



O Joãozinho estava outra vez no quarto sem janelas. Não sentia nem bem nem mal. Claro, estava contente porque, pelo menos, tinha ouvido a voz da sua querida mãe, mas, por outro lado, estava preocupado pelo resgate. Onde ia encontrar dinheiro a sua mãe, para os dois homens o deixarem livre? Ele sabia muito bem que a Florida não tinha dinheiro. Isto significava que não o deixariam nunca? O nosso amigo sentiu-se como se tivesse caído num poço profundo.
No quarto contíguo, o Maestro estava com a cabeça apoiada na sua mão. Isto significava que o Maestro estava a pensar, e quando ele pensava, nunca pensava em coisas boas.
- Ó, Maestro, disse o Passarinho, já é hora de comer.
- Tu não podes pensar em outra coisa?
- Desculpa lá, mas quando tenho fome não posso pensar em nada mais. É a lei da natureza.
- É a lei da natureza que também te faz dizer bobagens?
- Não digo bobagens, não senhor. É hora de comer e isto é um facto. Ao contrário, tu pareces muito preocupado sem razão alguma.
- Achas?
- Pois acho. Não há nada para me preocupar, não é? Já temos o dinheiro do casal, e muito pronto vamos ter o dinheiro da mãe também. Então, muito pronto teremos montes de dinheiro e cada um vai onde quizer.
- Quantos anos tens?
- Porquê?
- Porque pensas como se fosses um menino de dez anos!
- Mas, porquê?
- Pensaste o que vai acontecer se a mãe realmente não tem dinheiro, como me disse? Vamos correr o risco de ser apanhados pela Polícia, sem ganhar absolutamente nada.
- Mas tu disseste-lhe para não avisar a Polícia...
- E como tens certeza que ela vai fazer o que eu lhe disse?
- Pois, quer voltar a ver o seu filho, penso...
- Sim, claro, mas nunca se sabe. Nós temos de estar preparados para tudo. Aliás, se não tem dinheiro, não podemos ganhar nada. Então, temos de pensar num plano alternativo.
- Eu, como dizes, não sirvo para nada...
- E por isto eu já pensei no plano alternativo que precisamos. Vamos vender o menino a um outro cliente.
- Já encontraste?
- Ainda não, mas já fiz alguns contactos...
- Quem é?
- Ouviste alguma vez falar do Talho?
- Do cirurgião?
- Do cirurgião, sim.
- Pois não somente ouvi falar dele mas conheci-o na prisão. Ele estava lá por não ter pago impostos durante três anos, se bem me lembro. Eu estava lá por ter robado um carro. Ele ficou lá um ano e meio, eu fiquei três anos. Obviamente, o advogado dele era melhor do que o meu.
- Obviamente. Mas não penses que não teve consequências. Conseguiu sair da prisão cedo, sim, mas foi despedido pelo hospital onde trabalhava, e agora não o aceitam em nenhum hospital do país.
- Não me digas que ele é o cliente.
- Claro que não. Encontrei-o por acaso ontem e falámos um bocadinho. Ele vai trazer-nos em contacto com o cliente.
- Quem é o cliente, então?
- É estrangeiro, isto é a única coisa que sei dele.
- E que vai fazer com o menino?
- Queres saber mesmo?
O Passarinho não disse nada, mas fez sinal com a cabeça para o Maestro continuar. Ele olhou para a porta do quarto onde estava o Joãozinho, depois voltou para o Passarinho.
- Bom, disse. Vou dizer-te, mas tu não sabes nada, ouviste? O Talho não sabe que não trabalho sozinho.
- Não te preocupes. Vou manter a minha boca calada.
- No mundo há muitas pessoas que morrem, mas que podiam ser salvas se pudessem receber uma transplantação. Mas, para haver uma transplantação, há de haver órgãos disponíveis. E, sabes onde se encontram os órgãos disponíveis? Em pessoas que morrem nos hospitais. Mas as pessoas que morrem nos hospitais não chegam para todas as pessoas que precisam transplantações. Aliás, há pessoas muito ricas que pagariam muito dinheiro para encontrar um órgão disponível e que têm o dinheiro para pagar...
- O que estás a dizer? disse o Passarinho. Estás a falar do mercado negro de órgãos humanos? Vais vender o menino para lhe arrancarem os órgãos? Não posso acreditar nos meus próprios ouvidos!
- Tu querias saber...
- Não, disse o Passarinho, desculpa lá, isto não o vou permitir! Sou muitas coisas: ladrão, impostor, raptor, sim, mas assassino, não!
- Não sejas dramático! Nós somente vamos vendê-lo...
- Às pessoas que vão matá-lo! Não vou deixar-te vender o menino àquelas pessoas. Se precisar, eu mesmo vou a Polícia!
- Escuta aqui, imbecil, se não quizeres participar, a porta está aberta para ti. Posso trabalhar sozinho, não te preocupes. Mas...
Houve silêncio no quarto.
- Mas, continuou o Maestro, se avisares a Polícia, fingindo que és um cidadão honesto, podes ter a certeza que o teu pequeno Tomás...
O Passarinho sentiu como se uma pedra enorme lhe apertasse o coração.
- Digamos que o teu pequeno Tomás vai ficar pequeno para sempre, disse o Maestro. Estamos?

domingo, 10 de novembro de 2013

21. Telefonema de Natal



Amanhã é dia do Natal. Dia festivo para todos, que o festejam com a família. Isto é o que pensa a Florida, e está completamente desesperada.
Tantos dias passaram e ainda não soube nada do seu filho. A única coisa que o comissário Santos lhe disse foi que, como parece, o Joãozinho não foi raptado pelo bando brasileiro. Menos mal, mas mesmo assim, a verdade é que ninguém sabe em que tipo de perigo está exactamente o seu filhinho.
Na cama do Joãozinho está um pacote. É o presente que ela comprou para ele. É um carro pequeno vermelho. Custou-lhe um bocadinho caro, mas nada pode ser mais caro de um filho, não é?
A Florida pensa que seria boa ideia ir à igreja e rezar ao menino Jesús para proteger o seu menino e para o devolver nos seus braços muito pronto. Pensa também que seria boa ideia fazer um voto. Pode prometer que não vai cortar o seu cabelo até o Joãozinho voltar. Dantes, as mulheres faziam votos deste tipo, quando os seus maridos partiam longe, ou quando iam à guerra, ou quando estavam muito doentes.
Abre o roupeiro, onde está o seu único vestido. Soa o telefone. O coração da Florida dá um salto. Quem será?
Anda correndo ao telefone e com mão tremente levanta o auscultador.
- Estou, diz com uma voz que apenas se ouve.
- A senhora Pestana? pergunta uma desconhecida voz masculina.
A Florida senta-se na cadeira que está ao lado do telefone.
- Sim, sou eu, diz e sente o seu coração galopando dentro do seu peito.
- Temos o seu filho, senhora Pestana, e se a senhora quizer vê-lo outra vez, tem de pagar...
- Não percebo, balbucia. Quem é?
- Oiça, continua a voz, porque não vou repetir. Se a senhora quer ver o seu filho outra vez, tem de pagar dinheiro.
De repente, a Florida dá conta do que se trata.
- O meu filho, diz, como está? Onde está?
Grandes lágrimas começam a correr nas suas faces.
- Pelo momento, o seu filho está bem, não se preocupe.
- Quero falar com ele. Quero falar com o meu filho!
- Mãe, ouve-se a voz do Joãozinho.
- Meu amor! Como estás? Onde estás? Fizeram-te algo mau?
- Como a senhora vê, não estou a mentir, ouve-se outra vez a voz do homem desconhecido.
- Quero falar com o meu filho, diz outra vez a Florida. Quero ouvir ele mesmo dizer que está bem.
- Mãe, ouve-se o Joãozinho outra vez.
- Filhinho, como estás, meu amor? Estás bem?
- Leva-me de aqui, mãezinha, leva-me de aqui!
- Sim, filhinho, sim, tem um pouco de paciência. Pronto estaremos juntos, não fiques triste...
- Mãezinha, procurei escapar, mas não sabia...
- Então, ouve-se a voz do homem, a senhora viu que o seu filho está vivo. Agora, se quizer ver o seu filho, tem de seguir as nossas instruções.
- Sim, vou fazer tudo o que me disserem, por favor não lhe façam mal!
- Tudo dependerá de si.
- O que devo fazer?
- Primeiro, não pode avisar a Polícia. Se avisar a Polícia, sinto muito mas teremos de matar o menino.
- Matar? Não, não, por favor, não lhe façam mal! É apenas um menino. Não vou chamar a Polícia, prometo-o, não se preocupe.
- Segundo, a senhora deve deixar o dinheiro num lugar que nós vamos decidir e deve andar ao lugar sozinha, sem companhia de ninguém.
- Sim, claro, vou fazer como me diz. E onde tenho de ir?
- Já é cedo para a senhora saber. Vamos avisá-la um pouco antes do nosso encontro. Depois, quando tivermos o dinheiro, a senhora vai ter o seu filho.
- E como posso saber eu que vão fazer o que me diz?
- Não pode saber, diz a voz. Mas se a senhora não fizer o que dizemos, pode ter certeza que não vai voltar a ver o seu filho...
A Florida sente tanto medo que, até agora, nunca sentiu na sua vida.
- Está bem, diz. E quanto é que os senhores querem para deixar o meu filho?
Ouviu bem?
- Mas é muito, diz e pensa que muito pronto vai desmaiar. Eu não tenho tanto dinheiro.
- Sim, todos dizem que não têm, mas um pouco depois todos encontram. A senhora tem certeza que quer ver o seu filho? Porque podemos deixar a situação como está: nós sem dinheiro e a senhora sem filho...
- Por favor...
- Não somos más pessoas, senhora. Digamos que esta não é a sua resposta final. Vou telefonar outra vez esta noite para saber qual é a sua decisão. E, lembre-se: nada de Polícia. Com licença.
A Florida fica com o auscultador na mão. O que tem de fazer agora?