sexta-feira, 11 de outubro de 2013

8. Desesperada



Vinte e quatro horas não passam facilmente, especialmente quando uma pessoa conta os minutos, como fez durante toda a noite a pobre Florida. A alba encontrou-a onde a deixámos nós, sentada na cadeira, com a camisa do Joãozinho nas mãos.
Os raios do sol caíram nas suas faces pálidas e obrigaram-na a fechar os seus olhos. Depois, levantou-se e foi ao telefone. Telefonou ao seu trabalho para dizer que não ia e voltou ao seu posto.
Foi ao meio-dia quando o seu rosto pareceu acordar. O sol já estava alto no céu e nas escolas do país as campainhas soavam, assinalando assim o fim das aulas. Miles de crianças de todas as idades saíam das aulas e voltavam para casa. Era hora de ir à Polícia outra vez. Penteou-se, pôs o seu sobretudo e saíu.
E ei-la, agora, que está a andar a grandes passos na rua. Muita gente, que também está na rua, faz o caminho dela mais difícil, porque de instante em instante está obrigada a parar para não embater com alguém. Mas todos os seus movimentos são mecânicos, fazem-se sem ela pensar neles. O olhar dela permanece vazio, ausente, porque o seu pensamento está longe. Cuidado!
Um carro que estava a correr por pouco não a atropela. Felizmente, o condutor pára a tempo. A Florida fica imóvel um bocadinho e depois continua o seu caminho. Uma mulher pergunta-lhe se está bem. Ela nem sequer a ouve. O posto da Polícia já está perto. Faltam só alguns metros. Agora faltam alguns passos. Já não falta nada. Está no escritório do comissário.
Fazer uma declaração de ausência não é uma coisa fácil, especialmente para uma mãe, porque é como se a mãe aceitasse a possibilidade de não voltar a ver o filho, e isto é muito doloroso. Mas é uma coisa que deve ser feito, para a Polícia poder começar as investigaçôes. Então, a Florida responde a todas as perguntas que lhe fazem.
Se o seu filho tem desaparecido outra vez? Não, claro que não. Como é? Loirinho, magrinho, alto até aqui (e a Florida leva a sua mão até à sua barriga) e com olhos azuis. O que levava no dia que desapareceu? Umas calças azuis escuras, uma camisa amarela de lã e um sobretudo castanho claro. E um cachecol às riscas. Onde foi que desapareceu? No centro comercial. Tem alguma fotografia dele? Sim, ei-la.
Um polícia toma nota de tudo o que a Florida diz. Aponta também a ropa que o Joãozinho levava, embora nós saibamos que esta informação não vai servir muito, já que o nosso amigo leva outra ropa agora. O comissário pergunta se a Florida não tem alguma outra fotografia mais recente. Porque nesta fotografia há uma criança pequena, possivelmente de dois anos e o Joãozinho tem seis. Infelizmente, não tem. Mas o seu filho não tem mudado, é igualzinho. Só os dentes de frente mudaram. Do resto é a mesma pessoa.
O comissário toma a fotografia. Não está muito optimista, mas não diz nada à Florida. Ele também tem filhos e não quer nem imaginar como seria perdê-los. Está bem, diz. Vão mantê-la informada, que não se preocupe. Agora já pode ir-se para os deixar trabalhar. Bom dia.

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